A Floresta II

A Floresta II

Já sem nome

“Quem pode entender o coração humano?
Não há nada que engane tanto como ele” Jr 17-9

Ainda totalmente verde & sequiosa
De nome tão lembrado quanto o meu
Igualmente intransponível; Apogeu
Da insanidade verde & tortuosa

No acordar do longo desmaio
A mesma realidade faustuosa;
Eu tão idiossincrático e lacaio
Quanto eu fora; Silenciosa

Como um lago para o afogado;
Ensurdecedores passos mudos
Guiam até o ponto bifurcado

De um lado a espera pelo desmaio,
Idéia tão incerta como cancerosa;
Do outro o lago silenciado.

Contos de Lancaster

Contos de Lancaster

Primeiro: Dádiva Vermelha

James Viglioni

Parte I: Prólogo

Eram tempos de guerra nos Estados Unidos da América; os confederados liderados pelo General Lee já haviam se adentrado na Pensilvânia e todos os homens da família haviam jurado lealdade aos ideais da União, com a exceção do homem da casa: Bill.

William Taylor Den Herder usava seus grisalhos cabelos penteados para trás e era ligeiramente calvo (nada mal para seus cinqüenta anos). Tinha estatura média, olhos quase negros, ‘‘pernas de saracura’’ e uma ‘‘pança’’ razoável, ainda que fosse magro.

Parte II: O irmão prodígio

Era Março de 1863 quando o recrutamento para a Guerra de Secessão tornou-se obrigatório aos homens, sem distinção de raça, entre 20 e 45 anos. Apenas o irmão mais novo de Bill já era alistado, era herói de guerra na verdade.

John Marcus Den Herder alistou-se no exército quando completou a idade necessária, sempre fora seu sonho ir ao campo de batalha lutar pelos ideais de sua nação, mas apenas obteve o reconhecimento de seus superiores na Guerra Civil, onde conseguiu evitar a derrota em uma pequena batalha que já era considerada perdida.

Parte III: Recrutamento Obrigatório

Lawrence Daniel Den Herder era o filho do meio de Bill e o mais alto da casa. Seus cabelos eram louros como os de sua mãe e os olhos negros como os de seu pai. Fora ele trouxera a notícia do alistamento para a pacata casa dos Den Herder em Lancaster, Pensilvânia. Lawrence chegou furioso em casa, mas não quis explicar o motivo de tanta raiva ao ser recrutado para servir o país. E como poderia? Ele engravidara sua namorada em Dezembro, mas ninguém notara ainda. Obviamente, logo iriam notar.

Felicia Nicole O’Déann é oriunda de Dublim, Irlanda. Conheceu Lawrence em uma viagem que fez aos Estados Unidos com seus pais, quando ‘‘se perdeu’’ dos mesmos. Felicia já planejava tal incidente havia muito tempo, afinal nunca se deu muito bem com o Sr. e Sra. O’Déann. A viagem para o outro lado do Atlântico era a saída perfeita.

Fisicamente era acima da média, belos olhos azuis – torneados por profundas olheiras. Os cabelos eram ruivos e as sardas presentes, como era comum em sua região.

O velho Bill estava livre do alistamento, afinal já tinha meio século de vida, diferentemente de seus dois filhos homens; teriam de ir para a guerra. Scott Daniel Den Herder, o mais velho, em seu íntimo gostou; afinal sempre quis ser um soldado como seu tio John. Lawrence odiou, dizia não querer largar de Felicia, que morava há um ano na casa dos Den Herder. Além do que nunca quis ser soldado e agora iria ser pai, mas com certeza ele se importava mais com o primeiro motivo.

Eis que os dois soldadinhos foram à guerra.

Parte IV: A Gravidez

Katherine Nicole Den Herder, esposa de Bill, ligeiramente gorda e de cabelos louros, achou um absurdo a ‘‘catolicazinha enfiada na sua casa estar prenha de seu Larry’’. Somente ela o chamava assim, ele não gostava, mas fazia como todos na casa e ignorava a presença da mãe. Um mês após a saída dos filhos a gravidez de Felicia estava clara a todos, principalmente as outras duas mulheres da casa: Katherine e sua filha Tessa Kelly Den Herder.

Lawrence nem contou a sua namorada que iria partir. Ela descobriu dias depois ao ler em um jornal sobre o recrutamento compulsório.

Exatos 12 meses antes, Lawrence trouxe uma ruiva para morar com ele, a mãe fez um escândalo. ‘‘Quem era aquelazinha dos cabelos-de-fogo? Porque sua família não foi inteira queimada tempos atrás na inquisição, não era isso que a igreja dela fazia? Onde estavam os pais dessa delinqüente? Claro que ela não vai ficar aqui! Isso não é uma taverna!’’ E dentre os brados de Katherine, Bill disse com um sorriso malicioso: ‘‘a menina fica, agora cala-te, gorda’’.

Tessa, a mais nova dos três, era praticamente uma cópia física da mãe, porém magra. Muito mais do que deveria.

Ao contrário de sua mãe, ela gostou da decisão de Bill pois pensou que teria uma companhia feminina na casa – não é necessário dizer que ela também ignorava a mãe -. Mas assim como a presença de Katherine nada importava a Tessa, a dessa de nada valia para Felicia.

No mais a gravidez foi tranqüila, ainda que agora também não tinha companhia pra passar o tempo. Não era suportada pela sogra e detestava a cunhada; o sogro ela vira vez ou outra em sua estadia na casa dos Den Herder.

Parte V: A Guerra.

Scott possuía o tipo físico do pai, magro, barrigudo e pernas finas – porém com um estágio de calvície muito mais avançado e os olhos que eram verdes como o da mãe. Já Lawrence possuía o tipo físico de soldado de seu tio John: alto e forte.

Estar em campo de batalha não era legal como Scott pensara, seu sentimento patriota se desfez tão rápido como fumaça no ar por dois óbvios motivos: o primeiro é que ele nunca pegara numa arma de fogo antes (exceto arminhas de chumbo para matar pássaros da fazenda, mas creio que isso não o ajudou muito…), o segundo é que ele tomara um tiro na perna esquerda por pura inexperiência militar.

1° de Julho, 1863 – Batalha de Gettysburg, Pensilvânia

John M. Den Herder pertencia a 1a Divisão de Cavalaria dos EUA comandada pelo Gal. John Buford. Foi novamente louvável ao primeiro a perceber que o exército do Gal. Lee se aproximavam e eram três vezes mais numerosos que a 1a Divisão. Imediatamente o Gal. Buford aproveitou para pegar os sulistas despreparados; John, como era de se esperar, foi extraordinário.

2 de Julho, 1863 – Batalha de Gettysburg, Pensilvânia

Devido à sua brilhante atuação, John foi enviado juntamente com o Gal. Winfield Hancock e 262 homens, inclusive Scott e Lawrence, para um assalto contra 1600 confederados sob as ordens do Gal. Anderson.

A União saiu vitoriosa, porém voltou com apenas 47 homens, sendo que alguns baleados, dentre eles Scott.

2 de Julho de 1863, 15h09min

Era campo de batalha, estavam de um lado Lawrence, John, Scott e outros quatro atrás de uma mureta enquanto trocavam balas com o oponente (também havia muretas do outro lado). Lawrence estava deitado de modo a ficar totalmente escondido pela mureta e parecia não estar muito disposto a mudar de posição. Os quatro coadjuvantes estavam agachados atirando, um deles rezava em voz alta – foi o primeiro dos quatro a morrer. Um tiro em cheio no rosto, não tinha como escapar.

O segundo teve mais sorte, o tiro foi de raspão, perdeu apenas a visão no olho esquerdo. John, além de ser o melhor atirador dos sete (e estava provando isso), estava também liderando o grupo. A situação não estava boa, o terceiro acabara de ser atingido também (no peito, ao se levantar rapidamente para atingir um soldado). O quarto começou a gritar audivelmente o Pai Nosso de uma maneira medonha, estava com a sanidade por um fio. Apenas quem já passou por situações semelhantes poderia entendê-lo. Era viúvo e pai de três filhas, perdera sua mulher há muito devido a um tumor, mas ele não pensava nelas neste momento. Pensava em si e que estava prestes a morrer, sentia culpa e temia o Inferno. Sentia culpa por manter relações homossexuais (escondidas da sociedade, claro) com seu primo desde a morte de sua esposa. Era por isso que rezava (gritava): pela sua alma.

John ordenou que Scott saísse de sua posição e fosse para atrás de uma árvore próxima a mureta (com o intuito de se aproximar do inimigo e aumentar o campo de visão do grupo). Ele o fez com êxito, mas quase que instantaneamente o Quarto Coadjuvante perdeu totalmente a sanidade, levantou-se e saiu correndo em direção ao inimigo atirando e grunhindo um misto de orações com trechos bíblicos. Foi fuzilado, mas pelo menos abateu três do lado oposto.

Ao ver isso, Scott (que estava quase tão aterrorizado quanto o próprio) sem querer puxou o gatilho de sua espingarda, sem que ela estivesse devidamente apoiada em seu peito. O recuo fez com que a arma voltasse em sua face, fazendo com que ele quase desmaiasse; com isso acabou saindo de detrás da árvore, John correu para tirá-lo do campo de visão do inimigo: pulou em cima do sobrinho, mas isso não impediu que as balas chegassem.

Parte VI: O Menino que Nasceu

2 de julho de 1863, 15h48min

Casa dos Den Herder, Lancaster:

Felicia começa a gritar de dor desesperadamente: iria parir. Ninguém estava esperando que o bebê fosse nascer com apenas sete meses, ainda mais quando os homens da casa estavam para a guerra. Por sorte o velho Bill estava em casa (o bar estava fechado, o dono estava na guerra) e pôde chamar uma parteira (as mulheres da casa não possuíam autorização para usar as carroças ou cavalos, demorariam horas para ir e voltar até a cidade).

Foi uma cena terrível, Felicia sobre uma mesa mal forrada se debulhando em lágrimas de dor e o sangue escorrendo pela toalha formando uma poça no assoalho. A parteira já tinha visto casos similares, em todos nem o bebê ou a mãe sobreviveram, mas ainda sim ela tentou.

Campo de batalha, Gettysburg:

John se joga contra Scott; os inimigos atiram; ambos caem; em Lancaster o menino nasce.

Scott nunca sentira tamanha dor, o golpe que levara no rosto pela arma já não era mais nada. Só sabia gritar enquanto se aterrorizava cada vez mais vendo o sangue fluir de sua coxa. John não sentiu nada, nem mesmo o impacto da queda, apenas uma leve queimação rápida enquanto ainda estava no ar.

Casa dos Den Herder, Lancaster:

Não se ouvia mais gritos de dor, tirava-se dentre o sangue um pequeno bebê com um princípio de cabelo ruivo, sem um ruído, sem qualquer grito da mãe, sem qualquer choro do filho. Novamente Bill foi à cidade, desta vez para buscar o pastor.

Felizmente, Felicia estava apenas desmaiada, pois perdera muito sangue; o bebê foi considerado natimorto. Katherine praguejava ‘‘não tinha como nascer vivo! Não tinha como uma filha-do-demônio como essa gerar um filho de meu filho!’’ Estava claramente abalada, afinal de contas era seu sangue.

Ao final do dia, ainda que com tantas perdas o (que restou do) grupo pôde voltar para a casa. O segundo dia de batalha em Gettysburg estava terminado, com a vitória da União.

O filho ferido e o irmão morto.

Parte VII: Olhos do demônio

O pastor Adolf Schneider (nascido na Alemanha, mas criado na América) chegou à casa dos Den Herder e encontrou um feto ensangüentado em cima de uma mesa mal forrada (a mãe estava se recuperando no quarto). Era um menino, os olhos estavam semicerrados. Quando Schneider olhou atentamente viu que eram de cores diferentes, o esquerdo azul e o direito negro. Deu um pulo e gritou ‘‘OLHOS DO DEMÔNIO!’’ eis que o feto, dado como morto (por ser tão pequeno e prematuro, e por nascer desmaiado não se deram ao trabalho de verificar cuidadosamente o estado do mesmo), começou a chorar como todo bebê quando acorda.

Andou na prancha, cuidado que o tubarão vai te pegar!

Capitão Johann Siegerfeuer

James Viglioni

I

E eis que o velho capitão finalmente diz: ‘‘Aah marujos! Há dentre os nossos um grande facínora, um grande traidor!’’

Imediatamente, os de fé cristã lembraram-se do beijo de Judas e começaram a orar; temendo talvez, um presságio de apocalipse.

Dos prisioneiros de guerra, que em suas celas ouviam tais brados; os mais cultos já pensavam no império em terra que caía, e em devaneios de possível liberdade se adentravam.

Porém, os demais presentes simplesmente pensavam ‘‘Está louco, esse velho capitão!’’

II

Eram poucos os marujos que ainda criam na sanidade de seu capitão. Já nunca o julgaram muito são, mas ‘‘depois da perda de sua amada, enlouqueceu de vez’’, diziam entre si.

Desde o início os marujos não concordaram com a presença da Srta Castlelight no navio, mas quem eram eles para querer ou não?

‘‘Mulher a bordo da azar, Capitão!’’ clamavam os marujos, ‘‘calem-se, energúmenos!’’ retrucava o velho capitão enquanto entrava com sua amada pelo navio.

Em um canto escuro de uma cela um negro de olhos por inteiros avermelhados balbuciava freneticamente sobre uma vingança de Olokun, deusa sua, através de sua filha Yemanjá. Ninguém escaparia do poder do mar. Ninguém.

Nem mesmo os companheiros de cela deram a devida atenção, ‘‘afinal, por que levar em consideração o que um escravo africano diz? Ele nem ao menos possui uma alma’’, pensavam.

III

Marujos a remar, capitão a guiar, vozes a cantar e viola a violar.

.

O tempo a passar, talvez se fechar

A chuva que começa a cair

E o vento também a cantar

Será ser Olukun a punir?

.

Os marujos que a cantar,

Não se viram a se destrair

O céu já parecia mar

A chuva estava a cair

.

Mas eis que então

O velho que guiava

Sim, ele: o Capitão

.

Percebe a situação

A tempestade se agrava

E agora, Capitão?!

IV

Em meio a raios e trovões, a fúria do vento e das ondas levam a amada mar a dentro. Em meio aos rugidos da tempestade gritou o capitão: ‘‘ELIZABETH, NÃO!’’ Prestes a se jogar no mar na tentativa de salvá-la, por sorte (do capitão), dois marujos conseguiram impedi-lo de tal loucura cometer.

Como mágica, a tempestade foi-se com igual presteza ao sumiço da Srta Castlelight.

V

O Capitão estava enfurecido. Culpava os dois marujos pela perda da Srta Castlelight, ele poderia tê-la salvado, isso era claro – para ele. Pobres coitados, foram torturados até a morte das piores maneiras possíveis. Grande torturador esse Capitão, afinal era com isso que ele trabalhava no Império. Até se aposentar -  por loucura, diziam as más línguas.

Ah, como era louco o Capitão! Abriu a primeira cela que viu e esfaqueou um por um os presos! E assim fez todos os dias, até sobrar uma cela; cansou-se dos escravos. Os marujos também o irritavam, sempre havia um traidor; aquele que vendia as almas dos tripulantes aos maus espíritos. Como era triste o final deste traidor, nem ao menos sabia o que havia feito!

VI

O Capitão convocou a todos pois tinha algo de importante a dizer. Depois de muitos devaneios, por fim disse:

‘‘Aah marujos! Há dentre os nossos um grande facínora, um grande traidor!’’. Pobre daqueles presos que pensavam na queda do império, que pensavam que poderiam um dia ser feliz, ou ao menos feliz por um dia.

‘‘Marujos! O destino deste mentecapto não será diferente do destino daqueles na cela!’’ disse o louco capitão indo em direção a cela com sua velha faca. O Capitão gostava primeiro de tirar os olhos e depois ir cortando lentamente o corpo de sua vítima. Pobres prisioneiros, a única comida que receberam nos últimos tempos eram os restos dos coitados escolhidos pelo Capitão.

Ninguém notara que naquela cela, outrora, havia um negro de olhos vermelhos. Um negro que junto com a amada também desaparecera. Mas quem importar-se-ia com tal perda?

O Capitão, após terminar com os prisioneiros da cela voltou a bradar enquanto voltava a seu posto: ‘‘Oh, Facínora! Teu destino não será outro!’’, quase que imediatemente enfiou sua suja faca em um marujo próximo: ‘‘Ah! Não era você!’’ e continou andando. E foi repetindo tal ato enquanto andava; um por um os marujos caíram.

O Capitão ainda sentia a presença do facínora, mas quem havia de ser? Ele matara a todos! Todos! Só restava a si próprio, mas não iria se matar; a faca estava suja do sangue de todos esses marujos traidores. Ele sabia, eram traidores. Mas ele queria O Traidor, o maior dos facínoras; ele queria.

Não havia mais ninguém a matar, disso o capitão sabia. Mas a presença do mesmo ainda era sentida, só lhe restava uma opção: procurar por sua amada, isso era mais importante. O destino do facínora ele cuidaria depois.

Eis que o louco capitão pula no mar em direção a sua amada Elizabeth Castlelight. Sempre com sua faca na mão.

VII

Um negro uma vez disse: ‘‘Ninguém escaparia do poder do mar. Ninguém’’. Mas por que dar atenção? Nem ao menos uma alma ele tem!

O Louco de Stravinsky

O Louco de Stravinsky

James Viglioni

Em memória de A.

‘‘Stravinsky: Le Sacre Du Printemps – Part 2:

The Sacrifice, Sacrificial Dance’’

Ephorie.

O ritmo sobreposto a harmonia
Como em Stravinsky. E
Até mesmo o efeito barroco da pobre luz do poste
…………………..[em contraste com a luz da noite
Euforia.

O vento frio sobre o conversível
Corta a pele voluptuosa
Ao sons de buzinas de carros que desviam
Euforia.

Sobre a mulher amada, prazer e
Sobre a mulher não amada
………………………[Euforia.

Psychose.

Arritmia, pulsação acelerada
Derme inerte
Psicose.

Assistindo as notas
Ouvindo luz
Tateando o nada com os membros
……………………………..[doloridos
Psicose.

Arritmia, taquicardia
………….[dormonid
Euforia, psicose
……..[dormonid

Dormonid.

La Mort.

.

Primeiro Conto

Atrás da Parede do Sono

James Viglioni

‘‘Deadly petals with strange power
Faces shine a deadly smile’’

Black Sabbath


I

- Devaneios barrocos de luz e escuridão;  apenas o chão de pedra fria e áspera sob meu corpo; meus olhos semi-abertos só vêem um pequeno borrão alaranjado… Uma tocha distante que iluminava parcialmente uma parede, também de pedra, mas avermelhada… Como se… Oh, a escuridão.

Novamente, o peso das pálpebras torna quase impossível que eu abra os olhos… Oh, a dor… Não me incomoda mais. Nem mesmo essas pedras sob meu corpo ou as amarras apertadas em meus pulsos…  Os olhos pesam… Pesam.

Há quanto tempo? Não sei dizer. Horas, dias, minutos talvez, quem sabe? Não sei. Como vim parar aqui? Também não sei.

 

II


Joseph Mazzeo, ítalo-americano, nascido na região de Nova Iorque; alto 1,80m. Olhos e cabelos castanhos, sendo que aqueles tendiam ao verde. Sua pele morena era herdada de seus pais, imigrantes oriundos do Sul peninsular, e seu corpo era robusto. Fixado pelo sobrenatural, tinha como por estilo de vida a procura pelo estranho e obscuro; pelo inexplicável.

III

Finalmente chegara o dia. Mazzeo dirigia-se à Auvérnia, França. Rezava a lenda que pessoas desapareciam com grande freqüência e gritos eram carregados pelos ventos noturnos. Sem falar nas paredes manchadas com sangue.

Dia três de Dezembro de 1867, 23h58min.

A neve caia delicada e indiferentemente a tudo e a todos. Joe caminhava pelas ruelas de Auvérnia em busca de seu longínquo mistério. Quando já estava por desistir começaram os gritos. Gemidos femininos, nunca ouvira nada igual. A mulher estava sendo morta lenta e friamente. Era como se ele pudesse sentir cada corte; a pele abrindo-se diante da fúria da lâmina. Estava completamente paralisado.  Não eram gritos normais, era como se… Ecoasse dentro de sua cabeça e saísse pelos cortes em seu corpo, mas não havia corte algum. Não em Joseph.

Os gritos cessaram. Estava morta. Ele podia sentir, ou melhor, não sentir. A dor passara, o frio passara. Estava ficando tudo escuro… E os gritos se repassavam e repassavam…

IV

Mazzeo acordou no dia seguinte atordoado, com os vilões a sua volta assustados com o forasteiro que jazia na neve, próximo a uma grande pedra com marcas de sangue. Levantou-se com dificuldade e com muito frio, devido ao excesso de tempo exposto à tempestade de neve, ajudado pelos aldeões, quando apontam para e pedra e nela escrito, em sangue, algo em um alfabeto completamente estranho a Joe.

Mas o pior ainda estava por vir. Ao lado da pedra, havia presa na árvore pelos lindos e lisos cabelos ruivos, uma cabeça intacta. Exceto pelos olhos que encontravam-se sobre o sangue cristalizado abaixo da mesma. Azuis e sem vida.

De novo, o escuro.

V

Após acordar, ainda estarrecido com a situação, Joseph pergunta a um vilão que ainda estava por lá quem fizera tal brutalidade e ele lhe disse: “Foi a ‘Vizinha’. É como nós a chamamos, dizem que é uma bruxa… Coitada – disse, agora se referindo a morta -, outra que dorme sob a Parede do Sono”. Joseph não entendeu o “sob a Parede do Sono”,mas não teve tempo de perguntar, o homem se fora. Procurou saber o que era e em várias versões ouviu sempre que: ‘‘A Vizinha pintava em uma parede de sua casa com sangue de suas vitimas, chamavam-na de Parede do Sono porque os corpos jaziam ali, sob ela, dormindo o sono eterno da morte’’.

VI

Depois de quase um mês de investigação, Mazzeo descobriu que ela chamava-se Howena e que, apesar de tamanha crueldade, era espantosamente linda. Aparência de no máximo vinte e sete anos, pele muito clara, assim como seus cachos louros, e olhos muito verdes. Como souberam disso é um mistério. Não se tem relatos de alguém que sobreviveu depois de vê-la.

30 de Dezembro de 1867, 16h45min.

Joseph estava à espreita da bruxa, pois também descobrira que ela saía diariamente às dezessete horas para capturar suas vítimas. Passou-se meia hora e nada. Uma hora depois e a bruxa ainda não saíra, pelo menos não com ciência de Joe. Começava a nevar, mas ele manter-se-ia firme em sua missão. Mais uma hora se passara e nada além de neve e a escuridão gélida de uma noite do inverno francês. De novo adormecera. Em seus sonhos os gritos se repetiam, a cabeça ruiva o perseguia, e no escuro, não tinha para onde fugir.

VII

- A grande sala de pedra estava muito escura, exceto por uma tocha distante que iluminava a parede oposta à que eu estava amarrado. Sim, eu estava nu e preso pelos pulsos, acabara de me dar conta disso. Estava coberto de sangue. O meu sangue. Meu corpo dormente não se importava mais com o frio ou a aspereza das pedras. Muito menos com os talhos.

Eu a vi. Linda, maravilhosamente linda. Os olhos eram penetrantes e realmente eram verdes. O cabelo era de um louro acinzentado com cachos indefinidos e pouco volumosos. Deveria ter entre um metro e sessenta e um e setenta. Era magra, mas não exageradamente. As curvas eram bem torneadas e os seios modestos, porém pareciam ser desenhados por anjos.

Howena. Muito mais linda do que eu pudera imaginar.

‘‘Agora durma, meu amor. Durma’’ – ela disse enquanto vinha em minha direção.

Era como se um belo borrão branco, também nu, se aproximasse numa alegoria de paixão e morte.

Foi a última coisa que vi.


Epic Fail

Auto da Demência

O Último Lorde


Ato I: A Morte

Tu morreste. O que mais dizer?

Estás morta, espatifada no chão. E és linda, maravilhosamente linda! Mesmo morta.

Na verdade, és mais linda agora. Como uma estátua, uma bela estátua de mármore! Branca e fria!

Não me canso de olhar-te enquanto apodreces; há dias estou apenas a observar-te e observar-te…

O que posso fazer? És linda, oras!

.

.

 

Ato II: Convite desfeito.

Oh minha bela e ebúrnea estátua!

Como podes ser convidada, se agora estás morta? Como posso fazer isso?! Um convite a uma morta!

Vê que absurdo!

.

.

 

Ato III: Noite de Desgraças

Ah! Que os Grandes me perdoem, mas és tão mais linda assim! Caída, gélida e calada!

Maldita seja a noite, que na lascívia nos conhecemos! Malditos sejam Veneza e os bons vinhos das Tavernas!

Por que não me afoguei nos belos Canais Venezianos? Por que não te deixei desfalecer em tua febre? Por quê?

Ah! Amaldiçôo Urðr* por ter tecido tão deplorável passado!

.

.

 

Ato IV: A Despedida

Ah, como gostaria de apreciar cada momento de sua putrefação! Cada parte de sua carne, já dura, se desmanchar!

Mas chegará a hora de nos reencontrarmos;

Aguarda-me, meu amor, minha linda Paixão Branca, não me demoro a chegar ao Inferno!

.

.


* Personagem da Mitologia Nórdica.

Alegoria de vida na morte

O Vestido

James Viglioni


‘‘I feel unhappy, I feel so sad
I’ve lost the best friend, that I ever had
She was my woman, I love her so
But it’s too late now, I’ve let her go’’

Black Sabbath


Sumptuoso*, ainda que velho e poído,

Brandia lindamente em seu altar improvisado

Por galhos secos e retorcidos d’A Velha Árvore.


Seus pequenos detalhes em rosa,

Semi-ocultos pelas manchas de terra,

Eram lindos, lindíssimos, quando


Delineavam suaves

E aveludadas curvas…


Como se nada houvesse ocorrido,

Ou ainda, completamente indiferente a tudo ao seu redor;

Ele vibrava sob o poder dos ventos.


Como se a carne putrefata não se decompusesse,

Como se os dias não passassem,

Como se ainda houvesse felicidade,


Lá ele ficava.

Branco, sujo e rasgado,

Inerente apenas a si próprio;


Esperando o nada,

Enquanto toda a carne apodrece.


*Suntuoso

Super-heróis também morrem

Agradecimentos & Acatalepsia

James Viglioni
Ao Grande Mestre Dio

 ‘‘it’s HEAVEN AND HELL!’’

De minha acatalepsia, escrevo:
Por que foste, Ronnie?
Eu icrédulo – You’re gone -
Agradecimentos a ti, eu devo,

Gratidão ao Homem que vi;
Ao Homem que me viu chorar;
À magnânima voz que senti
E em mim sempre irá cantar

Por que foste, James?
You died young, Dio mio!
And all of God’s names!

Per Dio,
en Dio e
con Dio

 

*Acatalepsia: Impossibilidade de compreender

Dedico esse post ao grande mestre da música Ronald James Padavona, mais conhecido por Ronnie James Dio, que veio a falecer ontem (16 de Maio de 2010) às 7h45min horário local – Houston, EUA -.

Dio iniciou sua carreira musical com a banda Elf, depois foi para o Rainbow, à convite de Ritchie Blackmore. Em 1980 gravou com ninguém menos que Tony Iommi no Black Sabbath, lançando o clássico Heaven and Hell. Em 1983 sai em carreira solo, gravando futuramente mais um album com o Sabbath. Em 2007 retorna definitivamente com Iommi usando o nome de Heaven and Hell, quando lançam o album The Devil You Know (2009).

Dio foi e é um dos mais memoráveis vocalistas da história do rock, do heavy metal e da música.  Deixo aqui meus sinceros agradecimentos em nome do mundo pela sua obra que para sempre nos encantará e reencantará…

Dio, muito obrigado por ter existido, por ter cantado, por ter feito do mundo um lugar melhor! Muito obrigado por ter me dado a honra de vê-Lo em Maio do ano passado…

Dio, o mundo será um lugar mais solitário sem você. 

 

 

 

 

Rumores…

Sol Poente

James Viglioni

À Luísa

‘‘The moon,
in silver trees,
falls down in tears,
light of the night.’’

Black Sabbath

Dos sons se faz rumores
Sobre infinitos amores
E imagens lúcidas vindas
De álcool puro e lindas

Lembranças.

Allegro! Vivace! Vivace!
Molto Vivace!
Vivacissimo!

Já findo o prestissimo,
- alusão ao dia -
Vejo em cores
O fim dos amores

Rumores
Gravissimo!