Andou na prancha, cuidado que o tubarão vai te pegar!

Capitão Johann Siegerfeuer

James Viglioni

I

E eis que o velho capitão finalmente diz: ‘‘Aah marujos! Há dentre os nossos um grande facínora, um grande traidor!’’

Imediatamente, os de fé cristã lembraram-se do beijo de Judas e começaram a orar; temendo talvez, um presságio de apocalipse.

Dos prisioneiros de guerra, que em suas celas ouviam tais brados; os mais cultos já pensavam no império em terra que caía, e em devaneios de possível liberdade se adentravam.

Porém, os demais presentes simplesmente pensavam ‘‘Está louco, esse velho capitão!’’

II

Eram poucos os marujos que ainda criam na sanidade de seu capitão. Já nunca o julgaram muito são, mas ‘‘depois da perda de sua amada, enlouqueceu de vez’’, diziam entre si.

Desde o início os marujos não concordaram com a presença da Srta Castlelight no navio, mas quem eram eles para querer ou não?

‘‘Mulher a bordo da azar, Capitão!’’ clamavam os marujos, ‘‘calem-se, energúmenos!’’ retrucava o velho capitão enquanto entrava com sua amada pelo navio.

Em um canto escuro de uma cela um negro de olhos por inteiros avermelhados balbuciava freneticamente sobre uma vingança de Olokun, deusa sua, através de sua filha Yemanjá. Ninguém escaparia do poder do mar. Ninguém.

Nem mesmo os companheiros de cela deram a devida atenção, ‘‘afinal, por que levar em consideração o que um escravo africano diz? Ele nem ao menos possui uma alma’’, pensavam.

III

Marujos a remar, capitão a guiar, vozes a cantar e viola a violar.

.

O tempo a passar, talvez se fechar

A chuva que começa a cair

E o vento também a cantar

Será ser Olukun a punir?

.

Os marujos que a cantar,

Não se viram a se destrair

O céu já parecia mar

A chuva estava a cair

.

Mas eis que então

O velho que guiava

Sim, ele: o Capitão

.

Percebe a situação

A tempestade se agrava

E agora, Capitão?!

IV

Em meio a raios e trovões, a fúria do vento e das ondas levam a amada mar a dentro. Em meio aos rugidos da tempestade gritou o capitão: ‘‘ELIZABETH, NÃO!’’ Prestes a se jogar no mar na tentativa de salvá-la, por sorte (do capitão), dois marujos conseguiram impedi-lo de tal loucura cometer.

Como mágica, a tempestade foi-se com igual presteza ao sumiço da Srta Castlelight.

V

O Capitão estava enfurecido. Culpava os dois marujos pela perda da Srta Castlelight, ele poderia tê-la salvado, isso era claro – para ele. Pobres coitados, foram torturados até a morte das piores maneiras possíveis. Grande torturador esse Capitão, afinal era com isso que ele trabalhava no Império. Até se aposentar -  por loucura, diziam as más línguas.

Ah, como era louco o Capitão! Abriu a primeira cela que viu e esfaqueou um por um os presos! E assim fez todos os dias, até sobrar uma cela; cansou-se dos escravos. Os marujos também o irritavam, sempre havia um traidor; aquele que vendia as almas dos tripulantes aos maus espíritos. Como era triste o final deste traidor, nem ao menos sabia o que havia feito!

VI

O Capitão convocou a todos pois tinha algo de importante a dizer. Depois de muitos devaneios, por fim disse:

‘‘Aah marujos! Há dentre os nossos um grande facínora, um grande traidor!’’. Pobre daqueles presos que pensavam na queda do império, que pensavam que poderiam um dia ser feliz, ou ao menos feliz por um dia.

‘‘Marujos! O destino deste mentecapto não será diferente do destino daqueles na cela!’’ disse o louco capitão indo em direção a cela com sua velha faca. O Capitão gostava primeiro de tirar os olhos e depois ir cortando lentamente o corpo de sua vítima. Pobres prisioneiros, a única comida que receberam nos últimos tempos eram os restos dos coitados escolhidos pelo Capitão.

Ninguém notara que naquela cela, outrora, havia um negro de olhos vermelhos. Um negro que junto com a amada também desaparecera. Mas quem importar-se-ia com tal perda?

O Capitão, após terminar com os prisioneiros da cela voltou a bradar enquanto voltava a seu posto: ‘‘Oh, Facínora! Teu destino não será outro!’’, quase que imediatemente enfiou sua suja faca em um marujo próximo: ‘‘Ah! Não era você!’’ e continou andando. E foi repetindo tal ato enquanto andava; um por um os marujos caíram.

O Capitão ainda sentia a presença do facínora, mas quem havia de ser? Ele matara a todos! Todos! Só restava a si próprio, mas não iria se matar; a faca estava suja do sangue de todos esses marujos traidores. Ele sabia, eram traidores. Mas ele queria O Traidor, o maior dos facínoras; ele queria.

Não havia mais ninguém a matar, disso o capitão sabia. Mas a presença do mesmo ainda era sentida, só lhe restava uma opção: procurar por sua amada, isso era mais importante. O destino do facínora ele cuidaria depois.

Eis que o louco capitão pula no mar em direção a sua amada Elizabeth Castlelight. Sempre com sua faca na mão.

VII

Um negro uma vez disse: ‘‘Ninguém escaparia do poder do mar. Ninguém’’. Mas por que dar atenção? Nem ao menos uma alma ele tem!

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