Contos de Lancaster
Primeiro: Dádiva Vermelha
James Viglioni
Parte I: Prólogo
Eram tempos de guerra nos Estados Unidos da América; os confederados liderados pelo General Lee já haviam se adentrado na Pensilvânia e todos os homens da família haviam jurado lealdade aos ideais da União, com a exceção do homem da casa: Bill.
William Taylor Den Herder usava seus grisalhos cabelos penteados para trás e era ligeiramente calvo (nada mal para seus cinqüenta anos). Tinha estatura média, olhos quase negros, ‘‘pernas de saracura’’ e uma ‘‘pança’’ razoável, ainda que fosse magro.
Parte II: O irmão prodígio
Era Março de 1863 quando o recrutamento para a Guerra de Secessão tornou-se obrigatório aos homens, sem distinção de raça, entre 20 e 45 anos. Apenas o irmão mais novo de Bill já era alistado, era herói de guerra na verdade.
John Marcus Den Herder alistou-se no exército quando completou a idade necessária, sempre fora seu sonho ir ao campo de batalha lutar pelos ideais de sua nação, mas apenas obteve o reconhecimento de seus superiores na Guerra Civil, onde conseguiu evitar a derrota em uma pequena batalha que já era considerada perdida.
Parte III: Recrutamento Obrigatório
Lawrence Daniel Den Herder era o filho do meio de Bill e o mais alto da casa. Seus cabelos eram louros como os de sua mãe e os olhos negros como os de seu pai. Fora ele trouxera a notícia do alistamento para a pacata casa dos Den Herder em Lancaster, Pensilvânia. Lawrence chegou furioso em casa, mas não quis explicar o motivo de tanta raiva ao ser recrutado para servir o país. E como poderia? Ele engravidara sua namorada em Dezembro, mas ninguém notara ainda. Obviamente, logo iriam notar.
Felicia Nicole O’Déann é oriunda de Dublim, Irlanda. Conheceu Lawrence em uma viagem que fez aos Estados Unidos com seus pais, quando ‘‘se perdeu’’ dos mesmos. Felicia já planejava tal incidente havia muito tempo, afinal nunca se deu muito bem com o Sr. e Sra. O’Déann. A viagem para o outro lado do Atlântico era a saída perfeita.
Fisicamente era acima da média, belos olhos azuis – torneados por profundas olheiras. Os cabelos eram ruivos e as sardas presentes, como era comum em sua região.
O velho Bill estava livre do alistamento, afinal já tinha meio século de vida, diferentemente de seus dois filhos homens; teriam de ir para a guerra. Scott Daniel Den Herder, o mais velho, em seu íntimo gostou; afinal sempre quis ser um soldado como seu tio John. Lawrence odiou, dizia não querer largar de Felicia, que morava há um ano na casa dos Den Herder. Além do que nunca quis ser soldado e agora iria ser pai, mas com certeza ele se importava mais com o primeiro motivo.
Eis que os dois soldadinhos foram à guerra.
Parte IV: A Gravidez
Katherine Nicole Den Herder, esposa de Bill, ligeiramente gorda e de cabelos louros, achou um absurdo a ‘‘catolicazinha enfiada na sua casa estar prenha de seu Larry’’. Somente ela o chamava assim, ele não gostava, mas fazia como todos na casa e ignorava a presença da mãe. Um mês após a saída dos filhos a gravidez de Felicia estava clara a todos, principalmente as outras duas mulheres da casa: Katherine e sua filha Tessa Kelly Den Herder.
Lawrence nem contou a sua namorada que iria partir. Ela descobriu dias depois ao ler em um jornal sobre o recrutamento compulsório.
Exatos 12 meses antes, Lawrence trouxe uma ruiva para morar com ele, a mãe fez um escândalo. ‘‘Quem era aquelazinha dos cabelos-de-fogo? Porque sua família não foi inteira queimada tempos atrás na inquisição, não era isso que a igreja dela fazia? Onde estavam os pais dessa delinqüente? Claro que ela não vai ficar aqui! Isso não é uma taverna!’’ E dentre os brados de Katherine, Bill disse com um sorriso malicioso: ‘‘a menina fica, agora cala-te, gorda’’.
Tessa, a mais nova dos três, era praticamente uma cópia física da mãe, porém magra. Muito mais do que deveria.
Ao contrário de sua mãe, ela gostou da decisão de Bill pois pensou que teria uma companhia feminina na casa – não é necessário dizer que ela também ignorava a mãe -. Mas assim como a presença de Katherine nada importava a Tessa, a dessa de nada valia para Felicia.
No mais a gravidez foi tranqüila, ainda que agora também não tinha companhia pra passar o tempo. Não era suportada pela sogra e detestava a cunhada; o sogro ela vira vez ou outra em sua estadia na casa dos Den Herder.
Parte V: A Guerra.
Scott possuía o tipo físico do pai, magro, barrigudo e pernas finas – porém com um estágio de calvície muito mais avançado e os olhos que eram verdes como o da mãe. Já Lawrence possuía o tipo físico de soldado de seu tio John: alto e forte.
Estar em campo de batalha não era legal como Scott pensara, seu sentimento patriota se desfez tão rápido como fumaça no ar por dois óbvios motivos: o primeiro é que ele nunca pegara numa arma de fogo antes (exceto arminhas de chumbo para matar pássaros da fazenda, mas creio que isso não o ajudou muito…), o segundo é que ele tomara um tiro na perna esquerda por pura inexperiência militar.
1° de Julho, 1863 – Batalha de Gettysburg, Pensilvânia
John M. Den Herder pertencia a 1a Divisão de Cavalaria dos EUA comandada pelo Gal. John Buford. Foi novamente louvável ao primeiro a perceber que o exército do Gal. Lee se aproximavam e eram três vezes mais numerosos que a 1a Divisão. Imediatamente o Gal. Buford aproveitou para pegar os sulistas despreparados; John, como era de se esperar, foi extraordinário.
2 de Julho, 1863 – Batalha de Gettysburg, Pensilvânia
Devido à sua brilhante atuação, John foi enviado juntamente com o Gal. Winfield Hancock e 262 homens, inclusive Scott e Lawrence, para um assalto contra 1600 confederados sob as ordens do Gal. Anderson.
A União saiu vitoriosa, porém voltou com apenas 47 homens, sendo que alguns baleados, dentre eles Scott.
2 de Julho de 1863, 15h09min
Era campo de batalha, estavam de um lado Lawrence, John, Scott e outros quatro atrás de uma mureta enquanto trocavam balas com o oponente (também havia muretas do outro lado). Lawrence estava deitado de modo a ficar totalmente escondido pela mureta e parecia não estar muito disposto a mudar de posição. Os quatro coadjuvantes estavam agachados atirando, um deles rezava em voz alta – foi o primeiro dos quatro a morrer. Um tiro em cheio no rosto, não tinha como escapar.
O segundo teve mais sorte, o tiro foi de raspão, perdeu apenas a visão no olho esquerdo. John, além de ser o melhor atirador dos sete (e estava provando isso), estava também liderando o grupo. A situação não estava boa, o terceiro acabara de ser atingido também (no peito, ao se levantar rapidamente para atingir um soldado). O quarto começou a gritar audivelmente o Pai Nosso de uma maneira medonha, estava com a sanidade por um fio. Apenas quem já passou por situações semelhantes poderia entendê-lo. Era viúvo e pai de três filhas, perdera sua mulher há muito devido a um tumor, mas ele não pensava nelas neste momento. Pensava em si e que estava prestes a morrer, sentia culpa e temia o Inferno. Sentia culpa por manter relações homossexuais (escondidas da sociedade, claro) com seu primo desde a morte de sua esposa. Era por isso que rezava (gritava): pela sua alma.
John ordenou que Scott saísse de sua posição e fosse para atrás de uma árvore próxima a mureta (com o intuito de se aproximar do inimigo e aumentar o campo de visão do grupo). Ele o fez com êxito, mas quase que instantaneamente o Quarto Coadjuvante perdeu totalmente a sanidade, levantou-se e saiu correndo em direção ao inimigo atirando e grunhindo um misto de orações com trechos bíblicos. Foi fuzilado, mas pelo menos abateu três do lado oposto.
Ao ver isso, Scott (que estava quase tão aterrorizado quanto o próprio) sem querer puxou o gatilho de sua espingarda, sem que ela estivesse devidamente apoiada em seu peito. O recuo fez com que a arma voltasse em sua face, fazendo com que ele quase desmaiasse; com isso acabou saindo de detrás da árvore, John correu para tirá-lo do campo de visão do inimigo: pulou em cima do sobrinho, mas isso não impediu que as balas chegassem.
Parte VI: O Menino que Nasceu
2 de julho de 1863, 15h48min
Casa dos Den Herder, Lancaster:
Felicia começa a gritar de dor desesperadamente: iria parir. Ninguém estava esperando que o bebê fosse nascer com apenas sete meses, ainda mais quando os homens da casa estavam para a guerra. Por sorte o velho Bill estava em casa (o bar estava fechado, o dono estava na guerra) e pôde chamar uma parteira (as mulheres da casa não possuíam autorização para usar as carroças ou cavalos, demorariam horas para ir e voltar até a cidade).
Foi uma cena terrível, Felicia sobre uma mesa mal forrada se debulhando em lágrimas de dor e o sangue escorrendo pela toalha formando uma poça no assoalho. A parteira já tinha visto casos similares, em todos nem o bebê ou a mãe sobreviveram, mas ainda sim ela tentou.
Campo de batalha, Gettysburg:
John se joga contra Scott; os inimigos atiram; ambos caem; em Lancaster o menino nasce.
Scott nunca sentira tamanha dor, o golpe que levara no rosto pela arma já não era mais nada. Só sabia gritar enquanto se aterrorizava cada vez mais vendo o sangue fluir de sua coxa. John não sentiu nada, nem mesmo o impacto da queda, apenas uma leve queimação rápida enquanto ainda estava no ar.
Casa dos Den Herder, Lancaster:
Não se ouvia mais gritos de dor, tirava-se dentre o sangue um pequeno bebê com um princípio de cabelo ruivo, sem um ruído, sem qualquer grito da mãe, sem qualquer choro do filho. Novamente Bill foi à cidade, desta vez para buscar o pastor.
Felizmente, Felicia estava apenas desmaiada, pois perdera muito sangue; o bebê foi considerado natimorto. Katherine praguejava ‘‘não tinha como nascer vivo! Não tinha como uma filha-do-demônio como essa gerar um filho de meu filho!’’ Estava claramente abalada, afinal de contas era seu sangue.
Ao final do dia, ainda que com tantas perdas o (que restou do) grupo pôde voltar para a casa. O segundo dia de batalha em Gettysburg estava terminado, com a vitória da União.
O filho ferido e o irmão morto.
Parte VII: Olhos do demônio
O pastor Adolf Schneider (nascido na Alemanha, mas criado na América) chegou à casa dos Den Herder e encontrou um feto ensangüentado em cima de uma mesa mal forrada (a mãe estava se recuperando no quarto). Era um menino, os olhos estavam semicerrados. Quando Schneider olhou atentamente viu que eram de cores diferentes, o esquerdo azul e o direito negro. Deu um pulo e gritou ‘‘OLHOS DO DEMÔNIO!’’ eis que o feto, dado como morto (por ser tão pequeno e prematuro, e por nascer desmaiado não se deram ao trabalho de verificar cuidadosamente o estado do mesmo), começou a chorar como todo bebê quando acorda.